Garanhuns, 10 de maio de 2003
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OPINIÃO
 

Por que ter medo de padre Carlos?

Padre Marcelo Protázio


Todo dia fico surpreso com a quantidade de matérias em jornais locais, conversas de rua, eventos sociais e religiosos a respeito de uma possível candidatura do Padre Carlos André ao governo de Garanhuns. Como Padre, sempre tenho duas reações: de achar que necessariamente esse não é o nosso espaço e por outro lado, lisonjeado em saber que um irmão no sacerdócio tem respaldo suficiente para abalar os alicerces da velha política elitizada, assistencialista e autoritária de Garanhuns. Começo a acreditar que verdadeiramente Garanhuns gosta de renovação e precisa de transformação.

Garanhuns é uma cidade pólo. Porém, vale à pena perguntar: Qual é mesmo o referencial desta cidade para toda a região? Não podemos deixar de perceber o grande número de necessidades que exige atenção de quem nos governa. O nosso Hospital Dom Moura, que parece ser de responsabilidade do Governo Estadual, carece de uma reforma em seus serviços para evitar que nossos doentes sejam levados para Caruaru ou Recife. Enquanto isso não acontece, vemos crescer em Garanhuns o poder dos hospitais particulares e os planos de saúde com um preço alto para as comunidades de baixa renda. Já tivemos e temos médicos no governo. Não deveria ser o Hospital Dom Moura um referencial da cidade? A assistência médica se tornou meio de ganhar votos, favores, dependência, e não direito sagrado de cada cidadão, como reza a constituição do Brasil. Afirma-se: "Garanhuns é uma cidade turística". O que é mesmo que temos para oferecer além do nosso clima, da história de algumas pequenas conquistas e do esforço ousado de muitos artistas e escritores? Nossos monumentos são mal conservados, outros foram destruídos, e muitos deles não tem um acesso seguro. A nossa cultura carece de incentivos maiores. Até mesmo o nosso Festival de Inverno vem perdendo espaço dentro do estado para outras cidades. Como será este ano, uma vez que nas últimas eleições nada agradou ao governador aqui em Garanhuns? Temos algumas comunidades que são remanescentes de Quilombos. O abandono destas famílias, que não contam com uma assistência educacional é de clamar aos céus. Nossos finais de semana nada têm a oferecer para os nossos jovens, a não ser bar. Será que não seria possível uma parceria entre governos e sociedade para elaborarmos um projeto artístico-cultural afim de proporcionar aos nossos jovens, condições básicas para o desenvolvimento de suas capacidades nesta área? E quanto ao nosso esporte? Nossos times locais vivem em situações limites. Quantos profissionais não poderíamos oferecer ao nosso país? Como podemos ter orgulho dos times de fora e não valorizamos os nossos? Emprego. Eis uma palavra que mais preocupa a cabeça do nosso povo. Já tivemos muitas fábricas que com o passar dos anos foram fechadas. Já surgiram pessoas prometendo que iriam trazer indústrias para Garanhuns, mas, até agora, nada. Lamentamos que em nossa cidade não tenhamos uma empresa local para o trabalho de Limpeza. Mesmo exigindo que ela contrate pessoas de Garanhuns, maior parte do dinheiro vai embora da cidade. Nossos bairros. É incrível ver uma Cohab II, com mais de dez mil habitantes, totalmente desprezada há tantos anos, sem falar no Vale do Mundaú, Parque Fênix, Cohab III e outros. Sempre se procura jogar a culpa nos administradores atuais, mas nós sabemos que esses bairros já existem há muitos anos passando também por administrações anteriores.

Diante desta realidade, começo a compreender porque o povo busca renovação e porque estão vendo no Padre a possibilidade de conquista-la. Conheço o Padre Carlos há mais de dez anos. Nos seminários de Recife e João Pessoa, sempre teve papel de destaque, devido a sua inteligência e capacidade de liderança. Trabalhou nos morros de Casa Amarela, na capital do Estado, através de Associações de Moradores e Comunidades Eclesiais de Base, bem como com os estudantes e os mais pobres da periferia da Paraíba. Foi professor do Seminário Arquidiocesano de João Pessoa e assessor das missões, com a classe média e a classe pobre, durante o ano missionário. Sempre esteve dedicado aos seminaristas estudantes do nordeste. Quando me tornei Padre e fui comunicado pelo nosso Bispo que viria trabalhar em Garanhuns com o Padre Carlos André, tornou-se concreto um sonho do tempo do Seminário, quando ele me disse que gostaria de trabalhar em equipe numa Paróquia. Pelos três anos que convivemos, na Paróquia de São Sebastião, com mais de quarenta comunidades, em Brejão por algum tempo e Lagoa do Ouro durante quase um ano, sou testemunha do trabalho de revitalização que ele realizou. Quantos movimentos e pastorais floresceram no período de seu apostolado e que ainda hoje fazem desta Paróquia uma das mais queridas e dinâmicas desta cidade.

A reforma da Igreja Matriz, a festa de São Sebastião com o resgate da cultura regional e a construção do Centro Pastoral Dom Helder, são obras dignas de nota. Vale ressaltar, segundo o compromisso social e religioso, a presença desse líder com os drogados da Fazenda da Esperança, os detentos da Cadeia pública, a participação na formação do Conselho da Criança e do adolescente, a luta por rádios comunitárias, a estruturação da Pastoral da Criança, as palestras nas várias escolas e encontros educacionais, a participação ativa nos mutirões para construções, a presença no comércio e nas indústrias, a introdução do trabalho com dezenas de famílias através do ECC e as várias assessorias na Diocese de Garanhuns e em vários estados do Nordeste. Com seu grande carisma, carinho pelas pessoas, ele tornou-se um dos Padres mais queridos desta Diocese e da região. Acredito que por isto tudo, ele surge agora na esfera política, porque muitos já acreditam que ele poderá fazer pelo nosso município, caso seja candidato e vença, o que fez pela Igreja e pela população. Por isso, muitos têm medo de Padre Carlos e outros já querem tirar proveito.

Na internet, encontrei um artigo maldoso e mentiroso em relação à pessoa do Padre Carlos. Primeiro, fiquei preocupado, mas depois, calmamente fui analisar os fatos. Há muita gente interessada em tirar proveito de nossa Cidade. Pessoas sem escrúpulos, sem amor aos mais pobres, sem caráter e sem projeto político, tentam desabonar com calúnias a figura de um Sacerdote sério, honesto e trabalhador. Digo isto sem medo. Todos desta Paróquia lembram que na ida do Padre para Roma, foram feitas campanhas para despesas de viagem. Seus estudos são custeados por uma instituição alemã e suas despesas pessoais são pagas com ajudas, espórtulas de missas e até mesmo com trabalho, durante dois meses, na condição de operário, como ele fez na fábrica da Mercedes Benz, Daimler Chryler, Alemanha, durante as suas férias do ano passado. Roubo é uma palavra que não existe na consciência do Padre Carlos. A sua vida é marcada pela partilha dos bens e dos dons que Deus lhe concedeu. Fala o artigo que ele teria levado dinheiro que pertencia a comunidade de Miracica.

Esta comunidade tinha em caixa R$ 4.000,00 que foram emprestados a reforma da Igreja Matriz e do Salão Dom Hélder. No começo do ano passado, quando começamos a reforma da Capela de Miracica, este dinheiro foi devolvido por mim, como combinamos com a equipe, em material. Pessoas que fazem parte do conselho da Capela são testemunhas disto. Lamento que mentiras deste nível e outras, traduzidas de forma medíocre como conversas escabrosas, que não são pertinentes à uma vida pública, digna de princípios cristãos e humanos, seja a única palavra, como arma, inclusive eleitoral, que inimigos de Garanhuns e do povo mais sofrido, tenham para usar contra uma pessoa íntegra, despojada e batalhadora.

Tinha prometido a mim mesmo que jamais faria qualquer pronunciamento em relação a uma possível candidatura do Padre Carlos André. Mas, quando vejo que a integridade de um colega Sacerdote está sendo manchada, não posso me omitir e dar brechas a caluniadores. Que se faça política em Garanhuns, mas se faça com ética. O povo já mostrou que não vota em candidato que não mostra propostas possíveis de serem concretizadas, não tem história de luta e não ama o povo mais simples e marginalizado. Ninguém está interessado em políticos que usam em seus palanques, fofocas difamatórias ou artigos, para denegrir com mentiras a imagem dos outros. Vivemos de fato num País democrático, mas, a democracia só é percebida quando pessoas inteligentes e sensatas a exercem com compromisso, trabalho, honestidade, zelo pela vida dos mais abandonados e participação da maioria. Pessoas prepotentes, líderes sem lideranças, com medo do novo e do povo, que desconhecem o verdadeiro valor da democracia, se transformam em demagogas e perdem a credibilidade, não merecendo a confiança da população.