Garanhuns, 10 de maio de 2003
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ENTREVISTA
 

Teresa luta por melhores dias na Educação

Professora aposentada do Estado, Maria Teresa Leitão, 51, dedicou 31 anos de sua vida ao Magistério. Antes, estudou em escola pública e fez Pedagogia na Universidade Católica de Pernambuco, Unicap. Fez ainda pós-graduação na área do ensino e durante muitos anos militou no Sintepe, o Sindicato dos Profissinais de Educação de Pernambuco.

Como presidente do Sintepe, Teresa Leitão esteve à frente dos principais movimentos dos professores, principalmente nos governos Miguel Arraes e Jarbas Vasconcelos. A sua militância aguerrida em defesa dos direitos dos que vivem numa sala de aula e de uma educação de qualidade terminou por fazer dessa recinfense deputada estadual, eleita com 23.104 votos, no último pleito, pelo PT.

A parlamentar obteve votos do professorado em 169 municípios pernambucanos, conseguindo façanhas incríveis, como a conquista de 60 votos em Lagoa do Ouro, terra do prefeito Marquidoves Vieira. Aqui em Garanhuns mais de 100 pessoas ajudaram a petista a conseguir uma cadeira na Assembléia, numa cidade em que havia forte polarização entre as candidaturas de Izaías Régis e Aurora Cristina. Além disso, Genaldo Souza e Eraldo Ferreira, do PT, também foram candidatos ao Legislativo.

Recentemente, Teresa Leitão esteve na Suíça Pernambucana para conversar com integrantes do PT local e professores, fazendo visitas ainda em São João, Lagoa do Ouro e Belo Jardim. Na entrevista ao editor do Correio, Roberto Almeida, a deputada falou sobre educação, criticou o governo de Jarbas e disse que Lula está tendo um bom começo na presidência da República.


CORREIO - A Assembléia, na legislatura passada, tinha somente duas deputadas e agora tem oito. O que significou esse aumento da representação feminina no parlamento estadual?

TERESA LEITÃO - Isso muda alguma coisa se a gente considerar o espaço político da mulher, que foi ampliado. Contudo, eu digo sempre que não basta ser mulher, é preciso demonstrar no exercício parlamentar os compromissos políticos e sociais que se tem. É evidente que uma ampliação de dois para oito altera essa relação, como de fato aconteceu na Assembléia, mas eu esperava um pouco mais das deputadas mulheres. Houve muita comemoração por essa ampliação, tivemos a iniciativa de atuar em algumas questões de forma conjunta, porém até agora isso se reumiu às comemorações do dia da mulher, quando apresentamos um requerimento conjunto e foi realizada uma sessão solene debatendo temas do nosso interesse. Fora isso não tivemos uma atuação mais articulada, acredito que por conta dos próprios compromissos da bancada feminina, que tem concepções políticas bastante divergentes.

CORREIO - E com relação ao crescimento da bancada do PT na Assembléia, a senhora crê que nesse aspecto tivemos avanços?

TERESA - Houve avanços, decorrentes da quantidade, pois passamos de dois para cinco. Hoje nós temos condições de atuar em praticamente todas as instâncias da Casa. Nós temos deputados na Mesa Diretora, temos parlamentares presidindo comissões e representantes em todas as comissões mais importantes da Assembléia. Temos, finalmente, a liderança da Oposição, exercida pelo deputado Sérgio Leite. O PT é a vitrine da Assembléia, tanto que as administrações de João Paulo e de Lula são motivos constantes de avaliações da base de sustentação do Governo Jarbas, que esquece muitas vezes que o foco de atuação da Assembléia deve ser o Executivo Estadual.

CORREIO - Na sua visita a Garanhuns e região, recentemente, o que a Sra. observou sobre o Agreste, especialmente a respeito dos problemas na área de Educação?

TERESA - O Agreste de Pernambuco tem alguns pólos de desenvolvimento, como Caruaru e Garanhuns, mas no que tange a organização e participação da sociedade é uma região mais conservadora do que a Zona da Mata e o Sertão. Em relação à educação podemos dizer que os problemas são graves. Temos falta de professores em algumas áreas e parte da reforma das escolas está bastante atrasada. Em Garanhuns mesmo temos três escolas com problemas de funcionamento, ou estão funcionando em rodízio ou estão em prédios alugados, enquanto a reforma está se arrastando lentamente.

CORREIO - Com a criação do Fundef, em 1988, o salário dos professores melhorou muito nos municípios pequenos, mas agora está ficando defasado novamente. Por que isso ocorre?

TERESA - Na verdade o Fundef tem algumas falhas de origem. O ex-presidente da República nunca cumpriu o valor que deveria vigorar para repasse dos recursos do Fundo de Valorização do Magistério. E são poucos os prefeitos que observam de fato a legislação do Fundef. No início houve sim um aumento de salário em cidades que pagavam uma vergonha aos professores, 30 ou 40 reais por mês. Mas de 88 para cá houve uma estagnação e atualmente vários municípios estão pagando menos do que o salário-mínimo, sem contar que não há aquela preocupação com o desenvolvimento da carreira. O Governo Lula tem um projeto de alteração da lei, de modo a beneficiar os professores da educação infantil e do ensino médio. Porém o que determina o êxito do Fundef é o controle e a fiscalização pelos conselhos. Infelizmente, aqui mesmo nessa região eu rececebi muitas denúncias de que esses conselhos, inclusive o da educação, não funcionam. Esses organismos não se reúnem, os dados não são repassados, os prefeitos indicam quem desejam para fazer parte dos conselhos, e aí eles perdem a característica de independência e o objetivo de fiscalizar os recursos públicos.

CORREIO - A Sra. é oposição na Assembléia Legislativa, mas o seu partido, o PT, é governo no Recife e no plano Federal. Como a deputada avalia a administração do prefeito João Paulo e esse início do presidente Lula?

TERESA - A prefeitura de João Paulo, embora tenha encontrado algumas dificuldades, pelo próprio contexto municipal, ela tem mostrado claramente uma forma de governar diferente daquela do seu antecessor. A comparação entre Roberto Magalhães e João Paulo é totalmente inadequada, porque as prioridades da prefeitura do Recife agora são outras. O PT de fato está atuando com uma inversão de prioridades para aquelas camadas mais necessitadas da população. O principal ponto da gestão de João Paulo, além da implantação do orçamento verdadeiramente participativo, tem sido a atuação nas áreas da saúde e educação. Com a ampliação do programa Saúde na Família, com a contratação de muitos profissionais e um maior atendimento à saúde da população. E na área da Educação se você for comparar a ação da prefeitura do Recife com a ação do Estado, realmente a administração do PT ganha de mil a zero. Outro dia, na Assembléia, eu fiz um comparativo entre as duas administrações, levantei apenas seis pontos e o deputado Raul Henry, ex-secretário de Educação de Jarbas, só teve condições de responder três das questões colocadas, porque de fato a educação na prefeitura da capital está indo muito bem e o mesmo não acontece no Estado.

CORREIO - E quanto ao Governo Lula?

TERESA - É um governo com apenas quatro meses de atuação e acho que vai muito bem. Lula tem mantido a sua identidade popular e tem conseguido, no ponto da política econômica, realizar feitos que a própria base de oposição duvidava. Durante a campanha foi feito um verdadeiro terrorismo, diziam que o Brasil iria virar uma nova Argentina, que o dólar ia disparar, que a inflação iria voltar, que o Brasil ia virar um verdadeiro caos... Mas o Governo Lula está mostrando inteiro controle da situação e isso sem precisar se curvar aos interesses dos Estados Unidos. E em relação aos programas que foram apresentados, acho que tem dois programas básicos, que tocam de fato na necessidade do povo: o programa Brasil Alfabetizado, objetivando alfabetizar 20 milhões de pessoas, e o Fome Zero, que ao contrário do que se diz não é assistencialista, é um programa estruturador, vinculado a outros programas de geração de emprego e renda, principalmente para o Nordeste. E dentro em breve ainda será lançado o programa do Primeiro Emprego. Finalmente, o presidente teve a coragem de mandar para o Congresso as propostas das duas principais reformas que o Brasil precisa para voltar a crescer e crescer com justiça social. A grande diferença é essa: nós queremos que o Brasil cresça, mas não como aconteceu nos oito anos de FHC, um crescimento que aumentou a diferença entre ricos e pobres. O Governo Lula quer que o Brasil cresça com inclusão social e é por isso que achamos que esse é de fato um governo do povo.