Garanhuns, 15 de fevereiro de 2003
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ENTREVISTA
 

Zé Inácio: Silvino é um homem que esquece dos amigos

Advogado, radialista e professor, José Inácio Rodrigues foi prefeito de Garanhuns durante seis anos. Fez uma gestão muito questionada pelos políticos e pela sociedade da época (1983 a 1988) e depois não conseguiu se eleger vereador, tendo obtido pouco mais de 300 votos no pleito que disputou.

Zé Inácio, contudo, alega ter sido penalizado por Arraes um certo período, pois este não atendia os pleitos dos prefeitos de partidos contrário, e explica que a recessão, agravada com a transição do governo militar para o civil, também o prejudicou muito. Admite também que foi prejudicado por ser benevolente demais, democrático demais, deixando o povo se expressar livremente.

"Nunca persegui ninguém", garante Zé Inácio, que aproveita a entrevista também para fazer uma avaliação do Governo de Silvino. O atual prefeito, inclusive, foi seu vice na década de 80, porém, não é visto com bons olhos pelo professor. Ele acha que a atual administração tem aspectos positivos só na fachada, mas que observado de forma mais objetiva, no que interessa, os interesses do povo, da sociedade, "é um governo pobre".

O ex-prefeito, por fim, revela mágoas em relação a Silvino, a quem acusa de não ser leal aos amigos. "Lamento que ele entre na História como um homem que esqueceu os amigos", desabafa. A entrevista de José Inácio ao jornalista Roberto Almeida foi dada no Jornal Marano e é transcrita em parte agora no Correio, com exclusividade.


CORREIO - Qual a avaliação que o Sr. faz deste início do Governo de Lula?

ZÉ INÁCIO - Nesta última eleição votei em Lula no primeiro e no segundo turno. E tinha votado nele contra o Collor, em 1989, pois já desconfiava da trajétoria do ex-governador alagoano. Agora estamos muito entusiasmados, pois nos seus pronunciamentos fora do país vemos que o presidente tem sido recebido como uma liderença mundial, isso não só em razão de sua performance, mas sobretudo por conta de sua luta contra essa invenção do homem que é a fome. Esta foi criada pelo homem quando inventou a propriedade privada. E ela vem ao longo da história da humanidade massacrando milhões. Nos comove que o Lula vem com muita determinação procurando resolver o problema da fome, pelo menos no Brasil.

Sabemos que existem reações às propostas do presidente Lula, algumas delas no próprio PT. Mas isso já era esperado, pois o Partido dos Trabalhadores é complexo, desde o bispo até o ex-guerrilheiro, do operário ao mais ilustre intelectual do país. É um partido que abriga um objetivo grande, mas também muitas contradições.

CORREIO - Uma pesquisa feita após 30 dias do Governo Lula mostra que a população está aprovando o início de sua administração. Mais de 80% dos brasileiros estão otimistas com sua gestão. O Sr. então compartilha desse otimismo?

ZÉ INÁCIO - Eu sou um homem que não sou muito religioso. Respeito a todos e acho que todas as religiões caminham por um objetivo só. A minha religião é a política. E eu acho sinceramente que o Lula encarna quase que uma religão nesse país. Por onde ele passa, o que ele diz, tudo isso nos contamina, nos contagia e nos dá entusiasmo...

CORREIO - Lula inclusive foi o único presidente a participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. E foi aplaudido com entusiasmo nos dois. Parece que ele deseja promover a união do capital e do trabalho...

ZÉ INÁCIO - A idéia de unir o capital e o trabalho é como a idéia de salvar o homem. Nós temos Jesus Cristo, que é inquestionável, e do outro lado temos Marx, que queria salvar o estômago. E este é tão importante que o general Napoleão Bonaparte dizia que o exército marcha sobre o estômago. Ou seja, o estômago estando vazio ninguém tem condições de nada. Por isso que, voltando ao Lula, ele está conseguindo todo esse prestígio, atraindo esses aplausos, criando essa expectativa no mundo. Porque ele trata exatamente do ponto crucial que é essa víscera que nós carregamos dentro da gente e está sempre a pedir comida.

CORREIO - E qual é a sua expectativa desse segundo governo de Jarbas Vasconcelos, que começou já com grande polêmica, por conta da reforma administrativa?

ZÉ INÁCIO - Nunca fui muito otimista com Jarbas Vasconcelos. Eu o acompanho desde que foi deputado estadual e acompanhei sua primeira adminsitração, que se caracterizou pela duplicação da BR-232 e outras realizações em doses homeopáticas. E eu não sou muito de obra de cimento. Eu gosto mais de apreciar o governo que se preocupa com a obra de semente, àquela capaz de trazer para a comunidade frutos que alimentam o estômago e também o espírito.

CORREIO - Mas em que Jarbas estaria deixando a desejar?

ZÉ INÁCIO - Nos setores principalmente de saúde e educação que são a viga mestra de uma administração. Agora nesse início do segundo mandato está se criando uma expectativa negativa. Esta reforma administrativa, pelo que ouvimos dos funcionários da saúde e educação é uma coisa terrível. Quando se retira direitos num setor vital como a educação, eu passo a não acreditar muito não.

CORREIO - Qual a diferença da Garanhuns dos anos 80, quando o Sr. foi prefeito, e essa Garanhuns do início do século XXI?

ZÉ INÁCIO - A diferença da Garanhuns de ontem para a de hoje é muito grande, principalmente no setor cultural. Você sabe que a cultura é o símbolo, é a grande riqueza de um povo. E a nossa cidade tem perdido nesses últimos anos a sua característica nesse sentido. Nós por exemplo sempre realizamos grandes festas, até pelo reconhecimento de um tipo social. Em 1930 aqui foi criada a festa da mãe preta, para mostrar a Pernambuco e a quem nos visita que Garanhuns tem o compromisso com a raça negra. Na prefeitura eu tive essa preocupação. Visitei o Castainho, na ocasião e verifiquei que a igreja estava caindo e construi uma nova igreja.

O Natal, o Carnaval, o São João. Havia uma grandeza muito grande nesse sentido e os prefeitos primavam por essas festas, de enorme valor cultural. Lembro que Amílcar da Mota Valença no seu primeiro governo fez uma festa que foi admirada em todo o Estado. Amílcar que tambéem criou o Colégio Municipal, hoje totalmente mutilado. E quando se mutila a educação se mutila a cidade, se mutila a inteligência, principalmente da juventude.

Você vê que Garanhuns hoje tem praças com mais capim do que flores. E pedras também. Dá a impressão de que quem constrói tem o coração emperdenido.

CORREIO - Mas veja bem. O Sr. foi prefeito seis anos e seu governo foi bastante questionado. O que aconteceu que prejudicou sua administração e o impediu de continuar na vida política?

ZÉ INÁCIO - Eu fui eleito sob uma expectativa muito grande. Se isso é bom para se ganhar a eleição, mas depois a esperança é tão grande que torna-se difícil. E enfrentei um período de recessão, já com a transição do governo militar para o civil. E além da expectativa do povo de esperar muito tive também o problema dos contrários. Sempre procurei conviver com os contrários e o fiz, mas isso prejudicou muito a minha administração.

Houve uma época aqui que as emissoras de rádio, todas elas, se alimentavam da crítica a minha pessoa. Foi um governo muito popular e democrático. Os funcionários podiam falar, o próprio gari que eu colocava na rua para trabalhar comandava greve no seu setor. E eu recebia a todos, nunca nenhum deles foi perseguido.

CORREIO - Um político aqui de Garanhuns disse-me outro dia que o seu problema foi ser muito bom. Que o Sr. não sabia dizer não...

ZÉ INÁCIO - Eu não concordo com a colocação de que sou bom. Agora, acho que a minha sensibilidade de viver impede que esqueça o que fui. Eu passei muita fome, mas não foi somente a fome de não comer hoje. Era a fome de não ter esperança de comer amanhã. E sabia que o pessoal que me procurava era exatamente esse pessoal necessitado, com o qual eu vivi. Eu fui um prefeito humilde e quando deixei o cargo continuei a minha vida normal com a mesma humildade. O meu gabinete teve a porta aberta durante seis anos e na placa, colocada por um amigo, estava escrito "gabinete do povo".

CORREIO - É verdade que na sua gestão foram construídas 100 novas salas de aula em Garanhuns?

ZÉ INÁCIO - No meu governo foram construídas 70 novas salas de aula. Esse número é dado como maior por conta de reformas realizadas em escolas construídas nos governos de Celso Galvão, Aluízio Pinto, e Francisco Figueira. E teve a escola de São Pedro, feita na gestão de José Ferreira, mas só foi funcionar na minha administração. E no meu governo foi feito o reconhecimento da FAGA, que consegui com o apoio do então deputado José Tinoco.

CORREIO - O Sr. Parece ter um grande apreço pelo ex-deputado José Tinoco, ser muito fiel a ele. Por que essa postura?

ZÉ INÁCIO - Eu sempre o respeitei pelo seu trabalho, pela sua seriedade e acima de tudo pela sua lealdade. Ele que foi também um seguidor de Elpídio Branco e eu no início de minha vida, ainda adolescente e estudante. Elpídio costumava dizer que a lealdade é uma virtude da qual ele fazia praça. Eu eu tive isso como um roteiro da minha vida. Acima de tudo um homem púiblico não pode viver sem ser leal. Leal aos seus princípios, leal ao que defende, leal aos seus amigos e aos que o ajudaram. Acima de tudo àqueles que os combatem, porque na lealdade é que está o exemplo e o homem público deve ser o exemplo. Eu sou amigo-irmão de José Tinoco e devo-lhe uma atenção extraordinária e uma aprendizagem nesse setor de seriedade, de como se vê a coisa pública. Tinoco é uma das reservas do trabalho, da honestidade e da dignidade política que Garanhuns recebeu.

CORREIO - Gostaria, para encerrar, de colocar duas questões. Como vê a saída de Jorge Branco, filho de José Tinoco, do governo de Silvino, e como avalia a atual administração de Garanhuns?

ZÉ INÁCIO - Com a saída do secretário Jorge Branco quem perdeu foi Garanhuns, pois se trata de um rapaz de grande futuro. Uma pessoa que tem muito de Jorge, o pai de Tinoco e tem muito de Jorge Branco, avô pela parte materna. O pai de Fernanda. Ele consegue ter na sua vida a imagem desses dois homens, com o sentimento de trabalho, de bondade e acima de tudo de perdão.

CORREIO - E com relação ao governo de Silvino?

ZÉ INÁCIO - Eu tenho o máximo respeito pelo governo de Silvino. Principalmente pela conquista de dois mandatos, isso por decisão do povo. Com relação ao trabalho, se a gente for olhar o aspecto de fachada, de visual, tem muita coisa para ver. Agora, pelo lado objetivo, o lado da sociedade, do povo que precisa da força do governo, aí o governo é pobre. E tem fatos na vida objetiva desse homem que não se pode omiti-los.

Todos sabem que Bartolomeu quase se acaba de trabalhar para eleger Silvino, e antes mesmo dele assumir tomava atitudes que levaram ao rompimento. Um comportamento que cheirava a falta de lealdade e isso aí não é uma boa coisa para um homem. E tem outros fatos, como o que envolveu Dra. Ielma Lucena, que ele foi buscar no Recife e demitiu daquela forma, no estacionamento. Agora mesmo, tenho a notícia de uma professora de Miracica que o prefeito demitiu com um bilhete. E ela exigiu uma portaria.

Tem também a retaliação contra o vice-prefeito, que para entrar no Palácio Celso Galvão teve de recorrer à Justiça. Uma coisa horrível para Garanhuns, noticiada inclusive pelos jornais da capital. Tudo isso o povo vai vendo e veja o resultado da última eleição. São fatos que empobrecem a cidade e eu fico triste, por que esse homem começou política comigo. A decisão dele ser vice-prefeito, em 82, foi uma decisão minha, porque outras pessoas do grupo defendiam o nome de Dr. Esdras.

Não quero usar aqui a expressão dos jornais, como a Folha de Pernambuco que o chamou de Fujimori do Agreste. Isso entristece a gente e lamento que ele entre na história como o homem que esqueceu os amigos.