Garanhuns, 01 de fevereiro de 2003
  Início
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Cultura
  Sociedade
  Entrevista
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
ENTREVISTA
 

Eliane Simões revela o segredo da Faga

Bonita, elegante, simpática, inteligente. Eliane Simões Vilar, 48 anos, natural do Recife, é uma mulher de personalidade forte, que dirige com eficiência reconhecida pela comunidade a Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns, Aesga. A entidade é responsável pela manutenção da Faculdade de Administração do município, a Faga. Uma instituição que tem se desenvolvido de maneira surpreendente, nos últimos anos, graças sobretudo aos esforços da presidente da Aesga.

Eliane chegou à cidade 20 anos atrás e já se considera garanhuense de coração, mesmo sem nunca ter recebido nenhum título de cidadania dos vereadores do município. Na capital do Estado, onde nasceu, a professora estudou sociologia na Unicap e fez pós-graduação em Antropologia na UFPE, Psicologia Social na UPE e está terminando o seu mestrado em Educação pela Universidade de Lisboa.

Trabalhou na Universidade Católica de Pernambuco inicialmente na área de pesquisa e depois veio para Garanhuns, como professora, terminando por assumir os destinos da Aesga e consequentemente da Faga. Mas continua em sala de aula, em contato direto com os alunos, que lhe dão substância para sempre ir em frente, na luta pelo crescimento da Faculdade de Administração e do próprio município de Garanhuns.

Nesta entrevista ao Correio Sete Colinas, Eliane Vilar fala sobre o processo de educação no Brasil, em Pernambuco e em Garanhuns, em particular. Revela porque o curso de Direito não foi implantado na Suíça Pernambucana este ano e garante que a Faga vive exclusivamente das mensalidades dos alunos, sem dar despesas a prefeitura.


CORREIO - Como é que a Sra. vê a situação da educação no Brasil, no momento atual?
ELIANE - Com muita preocupação. A educação no país precisa realmente de uma reestruturação. Nós vemos hoje as universidades com muitas dificuldades, até por conta da educação fundamental, onde existem sérias deficiências. Nós esperamos que o novo ministro reformule o sistema atual, dando um pouco mais de atenção a área, pois estamos precisando disso.

CORREIO - O Governo deve investir mais na educação de base ou no ensino superior?
ELIANE - Certamente em todas as instâncias da educação, mas considero que a base é fundamental para que as pessoas possam ter uma boa educação superior. Pelo menos para que os alunos possam ter uma boa absorção do que tiveram no seu tempo acadêmico.

CORREIO - E quanto à Educação no Estado de Pernambuco, qual a sua avaliação?
ELIANE - Tão caótica como no Brasil como um todo. Vemos o problema com bastante preocupação, pois apesar de alguns avanços temos ainda muito para conseguir, muito para conquistar.

CORREIO - Na sua opinião o professor ainda é mal remunerado ou a situação já melhorou um pouco?
ELIANE - Ele é mal remunerado e o seu trabalho não é reconhecido. Aliás isso é uma questão histórica no Brasil. Desde muito tempo existe isso, de o professor não ter o seu reconhecimento da forma que deveria. E não acredito que essa situação mude a curto prazo não.

CORREIO - Particularmente no caso de Garanhuns como está a situação do setor?
ELIANE - Temos tido avanços em Garanhuns, uma vez que temos uma secretária de Educação do município atuante. Esperamos que apesar das dificuldades que ela enfrenta - naturalmente a missão é complicada e difícil - Girlane consiga superar as limitações que existem.

CORREIO - A Sra. acha que Garanhuns já mereceria um maior número de instituições de ensino de nível superior?
ELIANE - Certamente, porque Garanhuns tem essa vocação. E nós sabemos que investimos muito pouco no ensino superior no município, onde a demanda é muito grande. Existe uma demanda reprimida e vemos isso aqui na nossa instituição, que faz um vestibular muito concorrido. E quando conversamos com pessoas de outras instituições, inclusive na capital, percebemos que elas ficam surpresas com o números de vestibulandos da Faga. Isso deixa claro que Garanhuns e a região têm um campo vasto para ser explorado. Infelizmente não temos conseguido avançar muito por conta das limitações burocráticas.

CORREIO - Muita gente defende a instalação de novos cursos superiores na cidade, principalmente os políticos. A dificuldade em trazer esses cursos decorre só da burocracia?
ELIANE - A burocracia é muito grande. Nós enfrentamos uma verdadeira barreira, tanto no MEC quanto no Conselho Estadual de Educação. Até para que eles analisem a proposta de um curso é difícil. Nós temos várias propostas de cursos universitários no Conelho e há dois anos esperamos uma definição. Esses documentos estão nas mãos dos conselheiros, não sabemos que tipo de análise é feita... Mas sabemos que por trás de tudo isso existe um processo político. Muitos municípios conseguem passar na frente por conta dessa ingerência política. Infelizmente isso acontece.

CORREIO - No caso específico da luta pela implantação do curso de Direito, na Faga, o que aconteceu que não saiu este ano, conforme era intenção sua e do prefeito Silvino Andrade?
ELIANE - Veja bem. Essa é uma questão que nos frustra muito e ao mesmo tempo nos impele a uma luta maior. Nós estamos com todo processo pronto, inclusive com o nome de todo professorado analisado. Infelizmente o Estado não conseguiu ainda retirar os seus 1600 alunos, que não sabe onde colocá-los. A diretora da DRE, professora Cleonice, informou que existe uma negociação em torno do prédio da Garanhuns Motor, mas enquanto o Colégio Municipal não for cedido e não procedermos as adequações necessárias, com as instalações ncessarárias para a instalação do Curso de Direito, não poderemos avançar com o projeto.

CORREIO - Então a dificuldade seria mais de ordem local, atualmente?
ELIANE - De ordem local por conta dessa questão das instalações físicas. Entretanto nós temos agora outro agravante, por conta da mudança de governo. Mudou o ministro da Educação e não sabemos ainda como vão ficar no MEC esses processos de instalação dos cursos de nível superior. Certamente durante seis meses tudo ficará suspenso. Esperamos que se dê continuidade ao trabalho do ministro Paulo Renato, que entendia ser importante a interiorização do ensino superior no país.

CORREIO - Mesmo sem o curso de Direto a gente nota que a Faga é uma instituição que tem se expandido muito, nos últimos tempos. Então queria que a Sra. falasse um pouco da situação da Faculdade, dos cursos de Administração, de Marketing e de Turismo?
ELIANE - Pois é. Nós hoje temos três linhas de formação funcionando, temos 1200 alunos, isso é uma coisa que nos deixa muito felizes. Mas há também uma preocupação porque está faltando até espaço físico. Este ano o prefeito nos cedeu duas salas do Colégio Municipal, estamos construindo a biblioteca central e tudo isso é feito com o dinheiro das mensalidades dos alunos. Em 2003 estamos lançando também o curso sequencial em Ciências Contábeis, de nível superior, mas feito em um ano e meio e voltado para os que já estão no mercado de trabalho. E lançamos os cursos técnicos na área de administração, incluindo Gestão de Saúde e Gestão Ambiental. Temos enfim três cursos de pós graduação. Como se vê é um leque amplo, que atende a demanda de muitos estudantes.

CORREIO - A Faga precisa de algum recurso da prefeitura para sobreviver?
ELIANE - Nós temos todo apoio do poder municipal ao nosso trabalho, mas a prefeitura não precisa gastar recursos com a Faga, pois dependemos exclusivamente das mensalidades dos alunos.