Garanhuns, 01 de fevereiro de 2003
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CORREIO CULTURAL

Carlos Janduy


Produções Artísticas e Culturais

Nesses últimos três anos, os artistas de Garanhuns têm, na medida do possível, realizado seus projetos. Pra se ter uma idéia, só no meio musical, foram lançados, que eu saiba, mais de 20 CDs, a maioria produzidos na Digital Home Studio, gravadora da nossa cidade, que tem à frente o grande músico Roberto Lima, também produtor musical, arranjador, e operador de primeira linha. Há trabalhos - e eu não hesito em dizer - de excelente qualidade, dignos de serem mostrados em todo o Brasil. Mais recentes, podemos citar Paulinho Groove, Zezinho de Garanhuns e Marcolino, Rivaldo e Ailton, Banda Gênesis, Grupo Nostalgia, Impulso Musical, Anjo Querubim, Ronaldo César, Carlos Magano, Gonzaga de Garanhuns, Estado Suicida, Tell Martins, Mário Lucci, Adriano e Luciano, Gláucio Costa (este último, assim como os mais antigos, já reconhecido no cenário nordestino) e tantos outros que ora não lembro, mas que mereciam ser citados aqui.

Há também outros artistas da terra, fazendo seus discos demos, na esperança de conseguir uma boa oportunidade para mostrar seu talento. Maurilinho Matos, Aldecy Souza, Marcos Cabral, Neander, Moendas, Puro Swing são exemplos de músicos que já deveriam ter seus CDs na praça, pois acredito que há público pra todos os gêneros musicais. Claro que os trabalhos mais requintados, neste país, recebem uma atenção menor, mas o importante é que Garanhuns tem artistas em todas as áreas e que merecem um lugar ao sol, o sol da nossa gente e o sol desse mundão afora.

Ainda este mês, Karla Cybele estará lançando seu primeiro disco, intitulado O Porto, com seis regravações de grandes títulos da MPB e seis músicas inéditas. Graças a sua determinação e o apoio de pessoas amigas, que não só admiram a sua voz, Karla conseguiu realizar seu projeto. Parabéns à intérprete que não só tem o privilégio de cantar, como também fazer bem aos ouvidos de quem lhe ouve.

O cantor, músico e compositor Auderjan, natural de São João, radicado em Garanhuns, em breve estará também lançando seu primero disco. Não tive a oportunidade ainda de ouvir o CD, mas conhecendo o trabalho de Auderjan como eu conheço, tenho certeza que é de indiscutível qualidade. Certamente o grupo Sertão Caatingoso tem participação garantida no disco, pois Auderjan geralmente apresenta seus shows acompanhado dessa rapaziada boa de São João.

A arte-educadora Lúcia Ribeiro está em busca de portas que se abram, para que possa fazer o CD do grupo Canto Livre, formado em sua maioria por garotas de 10 a 14 anos, talentosas e determinadas a alcançar seus objetivos no meio musical.

O grande compositor e cantor Messias Santiago não lançou um CD o ano passado por falta de apoio. Espera este ano conseguir realizar seu projeto.

Com relação aos escritores da terra de Luís Jardim, sabemos que há vários trabalhos prontos ou quase prontos, para serem lançados. Roberto Almeida, editor geral do Correio Sete Colinas, está com sua nova obra, intitulada Na Terra do Presidente, composta por 16 contos, prefaciado, pelo extraordinário escritor Raimundo Carrero. Roberto, como muitos já sabem, escreve com responsabilidade, criatividade e alma. Sem dúvida, esse novo livro agradará em cheio os seus leitores e alcançará o patamar que merece.

João Marques, poeta, compositor (autor do Hino de Garanhuns), escritor, editor do jornal O Século e Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, também estará lançando (esperamos que num futuro próximo), A Cidade dos Meus Sonhos, romance que tem como cenário a Suíça Pernambucana e que reflete a segunda metade do século XX. Eu, particularmente, gosto muito das poesias e crônicas de João Marques e com o romance, certamente não será diferente, pois acredito que em sua nova obra estarão presentes o lirismo, a espirituosidade e os sentimentos especiais que lhe invadem na hora de criar, de soprar a tabuleta de barro com seus escritos.

Dentre os novos projetos de Ronaldo César, há também um livro de contos ou poesias que ele pretende lançar ainda este ano.

Outros escritores que já estão com livros prontos são Gonzaga de Garanhuns, Prof. Cláudio Gonçalves, Adírcio Alcântara, Marcelo Jorge e provavelmente mais alguns nomes que não chegaram ao meu conhecimento.

Nas artes cênicas, alguns grupos já estão estudando seus próximos espetáculos ou voltando com suas montagens mais recentes. Julierme Galindo, Sandra Albino, Irapoã Ribeiro, Eric Ferreira, Antônio Rodrigues, Marcelo Francisco, Lúcia Ribeiro, Antônio Araújo, entre outros, certamente estarão batalhando para realizar seus projetos teatrais.

Segundo informações de Gerson Lima e Jefson Fittipaldi, os preparativos para a realização da 13ª temporada do espetáculo Jesus Algria dos Homens, começou desde o ano passado, e eles esperam com isso, aliviar o calvário que se atravessa, para realizar a segunda maior "Paixão de Cristo" de Pernambuco.

Bom, por aí já dá para perceber que existe uma grande produção artística e cultural em nossa cidade, merecedora de uma atenção especial. Para isso, é necessário que se tenha uma representatividade forte, séria, contundente e consciente do que se pode fazer para conseguir o devido reconhecimento da população, das autoridades competentes e a da maioria dos insensíveis comerciantes de Garanhuns. Claro que ninguém é obrigado a ajudar ninguém, agora chegar ao ponto de humilhar (como aconteceu com dois amigos meus), fazer críticas destrutivas e achar que o ditado mais certo do mundo é que "santo de casa não obra milagres", aí não é só insensibilidade.

O povo brasileiro está esperando e torcendo que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa fazer um bom governo. Os conscientes sabem que ele não fará milagres, mas por ser bem intencionado, tentará mudar pra melhor tudo que estiver ao seu alcance, inclusive o setor cultural. Então, que possamos ter em nossa cidade, não só uma participação de alguns artistas garanhuneses no Festival de Inverno, mas sim, uma política cultural tão importante quantas as outras, para que nossos artistas sejam reconhecidos durante todo o ano, pelo seu valor e também pela sua consciência de não cruzar os braços e esperar por quem quer que seja, pois sabem que é a partir deles que pode acontecer o mais importante: a arte e a preservação da nossa cultura.


Saulo Laranjeira

Dia 24 de janeiro, esteve em Garanhuns, realizando um grande show, no Teatro Luiz Souto Dourado, Saulo Laranjeira, o João Plenário de A Praça é Nossa, do SBT. Lamentavelmente, o público foi pequeno, mas nem assim, o multiartista deixou o seu profissionalismo de lado. Foram 100 minutos de muito humor, poesia e música, encantando a todos que lá estiveram para prestigiá-lo.

Segundo Marcos Antônio, se fosse um besteirol qualquer ou um artista global, certamente o teatro teria lotado. "Um show desse nível, dificilmente tem um bom público, porque a maioria do povo gosta do que é descartável", ressaltou o radialista.

Na oportunidade, fizemos uma rápida, mas consistente entrevista, com o cantor, compositor, humorista e apresentador mineiro.

CJ: Saulo, fale um pouco sobre esse novo show que você vem apresentando em várias cidades no Nordeste.

SL: É um show de muito humor, música, descontração. Eu sou muito comprometido em divulgar a cultura brasileira; gosto muito, me sinto muito feliz e há muitos anos eu faço isso. É a primeira vez que venho a Garanhuns e espero ter um público legal, sensível à arte brasileira e que a gente possa comungar, celebrar o encantamento da arte brasileira, por intermédio do humor, da poesia, da música, presentes sempre nos espetáculos que faço.

CJ: Eu já tive a oportunidade de assistir a um espetáculo seu, em Recife, no qual predominava a música. Nesse show de agora, acontece o contrário: há mais tempo para você apresentar seus famosos personagens. Há possibilidade de você voltar a Garanhuns com um show musical, já que por aqui as pessoas lhe conhecem mais como humorista?

SL: Na verdade eu vou cantar um pouquinho hoje. Como você bem disse, não é a prioridade do espetáculo, mas algumas coisas eu canto, com trilhas pré-gravadas, mas o jeito de Saulo fazer arte (música, humor e poesia) vai está presente. Agora ter mais a música, evidentemente, eu terei que estar com a minha banda. Quem sabe, a gente comece por aqui uma grande história entre Saulo Laranjeira e Garanhuns e eu volte e a gente possa ir se conhecendo aos poucos.

CJ: Por qual dos seus personagens você tem um carinho maior?

SL: Pra mim, todos eles são importantes, porque a crítica que eu faço através dos meus personagens, elas só se completam realmente quando todos estão juntos; é muito importante a mensagem que eu procuro passar com todos os meus personagens. Agora, como você usou a palavra carinho, sem dúvida, eu tenho assim um especial carinho pela "Véia Messina", por ela ter sido o meu primeiro personagem; eu poderia dizer até que ela é a mãe, a avó, a bisavó de todos eles e por intermédio dela, eu tive a oportunidade de conhecer melhor a nossa gente brasileira, o dia-a-dia do nosso povo. Realmente eu tenho um carinho muito especial pela "Véia Messina", mas todos, pra mim, são necessários.

CJ: Atualmente você tem uma efetiva participação em A Praça É Nossa, principalmente fazendo o Deputado João Plenário e apresenta um programa de televisão, em Minas. Eu aproveito para perguntar: por que um programa como Som Brasil foi tirado do ar?

SL: Realmente é um mistério essa falta de interesse da mídia para com a cultura brasileira, mas não cabe a nós saber... O motivo não existe... O motivo específico é a falta de interesse ou o não surgimento de uma pessoa sensível à cultura brasileira, que possa resgatar novamente a idéia do programa Som Brasil. Eu por ser uma pessoa envolvida também com televisão, sou apresentador de um programa, em Minas Gerais, como você já disse, que podemos dizer que é um filho do Som Brasil; que ainda resiste, que ainda persiste; Arrumação é um programa que já existe há 15 anos; ficamos 4 anos no SBT de Minas e estamos retornando agora à Rede Educativa. É um programa de variedades, onde não só mostra música, mas também documentários, registros sobre o meio ambiente, turismo, ecologia, folclore, dança, teatro, humor; esperamos até que ele entre em rede nacional, quem sabe a gente seja esse Som Brasil e esse lamento seu deixe de existir, porque a gente vai, de certa forma, fazendo as vezes do Som Brasil.

CJ: Você já ouviu falar sobre o Festival de Inverno de Garanhuns?

SL: Já me falaram muito bem desse Festival e eu gostaria de um dia estar presente, como artista ou como participante, para conhecer a cultura desta região.

CJ: Saulo, deixa uma mensagem aos artistas de Garanhuns.

SL: A arte brasileira precisa ser resgatada cada vez mais. É preciso continuar criando. Que todos os artistas inspirados continuem na estrada, não desistam. Sabemos que existe um mercado muito difícil, muito complexo, que tem outros interesses, dificultando muito o caminhar, a presença de artistas emergentes, que lutam, procurando espaço, mas eu acho que nós temos um público muito carente, pronto para consumir essa arte. Os tempos podem mudar; temos agora um novo governo neste país; estamos com esperança e acho que temos que continuar acreditando, antes de mais nada, na nossa gente, na nossa arte. Sabemos dos empecilhos, das dificuldades por intermédio da mídia estabelecida, mas temos que continuar acreditando, acreditando na poesia, na emoção, no coração, no fazer arte. Continuem lutando, procurando sensibilizar a sociedade, para que cada vez mais ela possa respeitar e consumir a arte brasileira.

Um grande abraço a todos e muito obrigado pelo carinho de vocês. E eu espero, Janduy, a gente não ter que se encontrar só daqui a 10 anos.