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Bebês humanizam presídio feminino da Várzea

O presídio feminino de Garanhuns, instalado no bairro da Várzea, já foi alvo de críticas, debates políticos apaixonados e repúdio da sociedade local. Até um movimento de "amigos da cidade" foi criado para defender a Suíça Pernambucana da cadeia de mulheres. Mas o secretário de Justiça do Governo do Estado, Humberto Vieira, não quis nem saber, esnobou todo mundo, passou por cima dos anseios da classe média local e "inaugurou" a penitenciária às escondidas, numa meia noite de um domingo. O secretário mostrou que é forte, mas a população garanhuense deu a resposta na eleição, derrotando Jarbas Vasconcelos no município com cerca de oito mil votos a menos que o petista Humberto Costa. Claro, não foi só o presídio que fez o governador perder, porém que isso pesou não resta a menor dúvida.

Pois bem, a penitenciária feminina da Várzea agora é uma realidade, já são 53 detentas ocupando o espaço que deveria ser somente de 40 e cidade segue sua rotina normal, embora o ressentimento contra a cadeia das mulheres permaneça latente. Para muitos, que estão "do lado de fora" e nem sabem ao menos onde fica o presídio, o espaço reúne verdadeiros monstros. Há ainda o medo que os companheiros dessas presas passem a visitar com frequência a cidade, aumentando ainda mais a criminalidade. Lá dentro a realidade é outra, seres humanos de personalidades distintas se misturam e até dois bebês - um com dois e outro de três meses - vivem um dia-a-dia duro, em que as horas custam a passar e a esperança de liberdade alimenta a vontade de continuar de pé.

OS BEBÊS - Heitor Rafael tem três meses e é filho de Juliana Paiva da Silva, uma recifense de 19 anos, condenada a três anos de prisão por formação de quadrilha. O pequeno Heitor é moreno claro, tem olhos grandes e ostenta a pureza de todo recém nascido. Dormindo no berço de um dos quartos da cadeia da Várzea, o bebê chega a destoar daquele mundo de tipos condenados pela justiça, que mataram, roubaram, consumiram drogas ou praticaram um outro tipo de delito, e agora pagam uma pena pesada pelo desvio de conduta.

Quando completar seis meses, o menino terá de sair do presídio, será encaminhado a algum parente que cuidará dele enquanto a mãe cumpre o resto da pena. Juliana, que tem um jeito desinibido e gosta de encarar as pessoas de frente, confessa que o nascimento do filho mexeu com sua cabeça. Ela espera sair da cadeia para cuidar de Heitor Rafael e acredita que poderá se reintegrar a sociedade, oferecendo ao menino um futuro melhor.

Por enquanto, com a ajuda das colegas de infortúnio, está às voltas com fraldas e mamadeiras, amamenta o seu bebê e dá o carinho comum a maioria das mães. A mesma situação de Juliana é vivida por Vanusa Ferreira da Silva, 28 anos, natural de Saloá. Estando presa ela deu à luz a Tamires Ferreira, que está com dois meses e também ficará ao seu lado nos seis primeiros meses de vida.

Tamires é morena, bonita e bem dorminhoca. Os berços dos dois bebês do presídio feminino de Garanhuns ficam um ao lado do outro e mais dois já estão colocados, para receber as gêmeas que nascerão esta semana, filhas de Dionice do Nascimento (esta última deve ter feito uma cesária na última quarta-feira e a cadeia da Várzea certamente já ganhou mais dois recém nascidos).

Vanusa Ferreira foi presa ao assumir um crime que teria sido cometido pelo marido e deve cumprir um pena longa, de pouco mais de 12 anos. Ao contrário de Juliana, que foi mãe do primeiro filho, Vanusa tem outros seis filhos, estes sob os cuidados do ex-patrão ou de familiares. Mas confessa que ter parido enquanto está na prisão é uma experiência única e espera um dia se ver livre para tentar encaminhar bem na vida a menina Tamires.

A verdade é que o nascimento das crianças mudou a rotina do presídio da Várzea, humanizou o abrigo das mulheres criminosas, fazendo com que tanto as detentas quanto as agentes penitenciárias se enterneçam com os sorrisos, bocejos e choros de Heitor e Tamires.

Além de Juliana, Verônica e Dionice, que já são mães, outras duas presas estão grávidas: Maria Sileide Jesus Silva, natural do Estado do Piauí, e Suely Alexandra da Silva, do município de Arcoverde. Elas chegaram no presídio já carregando os filhos no ventre, pois na Várzea ainda não são permitidos encontros conjugais.

Verônica Correia, agente penitenciária, é uma das funcionárias da cadeia que curte os recém nascidos, chegando a apelar para as pessoas que estão do lado de fora que ajudem as mães dos dois bebês. "Quando eu vim trabalhar aqui pensava como os outros, mas hoje vejo as coisas de um modo diferente", confessa Verônica. Segundo ela, tanto as mães quanto as crianças precisam de apoio material, pois as dificuldades são muitas.

No presídio feminino de Garanhuns, além da novidade dos bebês, as detentas realizam trabalhos manuais, estudam e recebem um tratamento digno, de modo a terem uma chance de não cair novamente no caminho do crime. À frente do trabalho realizado na Várzea está a advogada Maria Goretti, que é considerada quase uma amiga pelas prisioneiras.

Na sala de aula, a professora Carla Carmelina confessa estar tendo uma experiência única de vida, tendo mudado completamente sua visão das coisas depois que passou a conviver com as detentas. "Existe muita dureza, solidão, ausência de familiares", revela Carla, assegurando que algumas delas são boas alunas.

No fundo, todos torcem para que pelo menos os bebês tenham uma vida diferente. Hoje eles são puros, mas quem sabe o que o futuro lhes reservará? (R.A.).