CIDADE

 

Visto por dentro: O Festival que o povo não assistiu!

Marcelo Jorge


Em dez dias de Festival de Inverno em sua décima segunda edição, muita coisa aconteceu e sem dúvida, muita coisa passou sem que a maioria do público percebesse. Detalhes de artistas, gafes de imprensa (já contadas e recontadas no livro do Roberto Almeida) e sem dúvida, fatos pitorescos fazem com que o Festival tenha uma riqueza ainda maior.
Tive mais uma vez, o privilégio de apresentar o Evento na Praça (hoje Esplanada Cultural) Guadalajara, onde os olhos do público normalmente se voltam com mais evidência. Por lá já passaram nesses doze anos, os maiores nomes da mais fina flor da música popular brasileira, uns consagrados, outros que fizeram do FIG um trampolim para a carreira, mas sem exceção, todos com o objetivo de aparecerem para públicos de 5 à 60 mil pessoas.

No início, as homenagens: 30 anos de Quinteto Violado. No palco, os homenageados e seus convidados Santana, Jorge de Altinho e outros nomes regionais deram o ar da graça com muito forró, Hino de Pernambuco regado à show pirotécnico. Noite curta mas muito significativa. Nas noites seguintes, as peculiaridades das atrações: Na sexta-feira, Raimundo Fagner bem mais magro, desfiou seu repertório tradicional (e em certas ocasiões entediante até!). Mas a galera não cansou de repetir refrões e se emocionar ao ouvir pela enésima vez "Canteiros" . A Banda do artista muito à vontae e nada exigente nos camarins.

No Sábado, como diria o famoso filósofo e poeta popular Patativa do Assaré , " a jiripoca piou!" . Depois do horrível repertório, horripilante voz e terrível acompanhamento do Celo Gomes, vieram as repetidas informações ao público de que a grande atração da noite o Cidade Negra já se encontrava na Cidade. Público de todos os pontos superlotaram a Esplanada na ânsia de ver a Banda que trazia um trabalho acústico permanentemente evidenciado pela mídia. As horas se passaram e eu como locutor era informado que mantivesse o público sob controle que o Cidade Negra já estava se preparando e coisa e tal. Até aquele momento, realmente víamos os músicos da Banda nos camarins, o som do palco já havia sido passado à tarde e estava tudo pronto para o show. De repente, quase uma hora da manhã , o Presidente da FUNDARPE , Bruno Lisboa me informou o que ninguém queria ouvir àquela altura do campeonato: Só faltava o Tony Garrido, que em virtude das gravações para a Globo, atrasaria a apresentação. Comecei a achar estranho o corre-corre nos bastidores e me resumi a aguardar o desenrolar dos fatos. Depois de muitas vaias do público, que já aguardava impacientemente, veio a informação "fatal": " Pelo Amor de Deus", dizia o Produtor do Cidade Negra, quase com lágrimas nos olhos , "Esse pessoal vai arrebentar tudo, mas a verdade é que Tony sobrevoôu Garanhuns, não pode aterrisar por falta de teto e está voltando para Recife. Se por acaso ele resolver voltar, só vai chegar as seis da manhã! Voce vai ter que ir lá e falar para o público a verdade". Naquele momento, um dos mais difíceis de todos os nove festivais que eu já havia apresentado, me deu uma tremenda dor de barriga e uma sensação de que eu também havia sido enganado, já que era de minha boca que o público ouvia as novas sobre a apresentação da Banda. O que pude fazer, foi o que foi visto na Esplanada: me recusei a entrar sozinho no Palco e sugeri que a única forma de conter e reduzir um pouco os estragos já causados seria apresentar a banda ao público para que testemunhassem sua presença e um deles (no caso , o Lazão) pudesse esclarecer e ratificar todo o problema. Depois disso, eles puderam perceber o que eu havia falado para o Presidente da FUNDARPE e os produtores da Banda:

O público do Festival, apesar de frustrado não gerou nenhum tipo de violência e agiu de forma natural , transformando os aplausos guardados para o Cidade Negra em vaias!

Para encerrar o episódio, o Tony fez sua mea culpa na manhã seguinte e realizou como prometido um dos melhores shows de Festival de Inverno.

O show da Banda Calypso, na quarta-feira (continuo sem entender porque a banda Colapso , desculpem, Calypso no Festival...) foi sem dúvida um dos maiores públicos do Evento -o que, ao meu ver, continua não justificando essa presença que não acrescenta nada ao FIG, mas destoa do mesmo - não trouxe supresas para a platéia que já havia visto a banda no Dia dos Namorados em Garanhuns. A única pessoa surpreendida com o público, foi a vocalista da Calypso, a Joelma , uma artista muito simples e acessível, que dizia em off ainda não entender porque sua Banda fazia tanto sucesso. Nem você e nem nós, Joelma...

Paulo Isidoro, sambista de primeira linha fez um belo show na segunda mas foi prejudicado pelo som, sem retorno e em alguns momentos com falhas no seu microfone. Coisas da mesa "negão" não se preocupe: voce é bom e por isso estava no FIG!

Meu querido Auderjan , de São João para todo o Brasil, fez o melhor show da noite na terça, já que a grande atração, Nando Cordel trouxe um repertório baseado em sua carreira que apesar de marcante não apresenta novidade. Continua um sujeito simples também nos camarins. Adilson Ramos só cantou músicas novas: Olga, Lêda, O relógio, ec e tal. Contionua o Show man e já empatou comigo: nove apresentações no FIG.

Um detalhe: a única noite que rolou homenagem sincera ao Chico Science, foi na quinta-feira com os Devotos, Mundo Livre e galera do Nação Zumbi. Uma noite memorável para os mangueboys e manguegirls. E o pior é que durante todo o evento, eu sempre solicitava ao mesário que rolasse som mecãnico com o Chico, mas ele falou que só havia trazido Calypso...

A praça foi sacudida na sexta-feira com o Roupa Nova. Desfiaram aos milhares de ouvidos e olhos atentos seu repertório de novelas. Nosbastidores, mostraram que continuam à pleno vapor, (ou pelo menos tentam) dando cantadas nas fãs e mulheres que estivessem na área. Côroas espertos!

Para encerrar, começamos a sexta-feira com a banda Garanhuense Eclipse Urbano, com Andréa Dória e Cia que mandou ver muito Pop Rock , agradando em cheio o público presente.

Uptowm Band fez uma belíssima apresentação, se bem que pelo estilo mereciam um lugar no aconchegante Pau Pombo, onde a galera realmente sacava de blues.

O festival foi encerrado nas primeiras horas da madrugada do Domingo com a Rita Lee, cuja produção solicitou " gentilmente" que a imprensa se afastasse do palco, fotógrafos só ficariam durante a execução das três primeiras músicas e o locutor apresentador não precisaria apresentá-la, já que, de acordo com eles, todos já sabem da história da vovozinha do rock. Quando eu me aproximei do palco para anunciar os patrocinadores, fui logo advertido pelo produtor que não era preciso falar nada. Ele foi ríspido e eu tive que ser também. Ao ser informado que deveria ser breve na apresentação, eu disse que trabalhava para os organizadores do evento que o estavam pagando e levaria o tempo que fosse preciso para falar. Com esse show musical e político com direito à comício da Rita Lee, encerrei minha já tradicional participação como apresentador do FIG (algumas pessoas tiveram que me engolir!) , feliz pelo trabalho, recompensado pelo esforço e maravilhado com a festa que mais amo em minha cidade.

O ano que vem (talvez) a gente se encontra com o 13º FIG.


Marcelo Jorge é radialista, publicitário da Free Idéia & Comunicação e mestre de cerimônias