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HUMOR

Raulzito


Raul enfim mostra sua face

Neste número de aniversário do CORREIO, resolvemos publicar uma entrevista especial com o Raulzito, o mais amado e odiado jornalista da cidade. Com essa matéria, os leitores perdem a coluna da quinzena, mais ganham uma oportunidade de conhecer melhor o irreverente articulista.

CORREIO - Quem é o Raulzito?
Raulzito - Sou eu mesmo. Tenho 32 anos, uma namorada chamada Viviane e moro no aconchegante bairro do Mundaú. Minha rua não tem calçamento nem saneamento, no bairro faltam escolas e postos de saúde. Mas adoro o Pólo Heliópolis e a Esplanada Cultural Guadalajara.

CORREIO - Dizem que você é um pessimista, o chamado cri-cri, que não elogia nada. Isso é verdade?
Raulzito - Isso é coisa de quem não tem senso de humor nem inteligência para sacar uma crítica construtiva. Eu gosto de muita coisa e sou capaz de elogiar o que realmente merece ser elogiado. Adoro as coxas da Viviane, as empregadinhas do Pau Pombo e o Festival de Inverno. Mesmo com esse tal de Calipso na programação.

CORREIO - O que você acha dos candidatos de Garanhuns à Assembléia Legislativa?
Raulzito - São ótimos. Devemos votar neles. Eu mesmo gostaria de poder votar mais de uma vez para agradar a todos. Acho até que poderíamos ter mais candidatos, não sei porque o vice-prefeito, um homem tão decidido e capaz de gastar dinheiro à beça numa campanha não se candidatou também.

CORREIO - Mas você tem preferência por algum?
Raulzito - Sou Aurora pela manhã, prefiro Izaías à tarde e à noite sonho com a eleição de Givaldo. De madrugada, nas minhas insônias, penso em fazer uma revolução com Genaldo e Eraldo, do PT.

CORREIO - E o Romário?
Raulzito - O Felipão é que tinha razão. Não fez nenhuma falta e o Ronaldo é muito melhor.

CORREIO - Eu me referia ao Romário político, mas deixa pra lá. Você já tem candidato a presidente?
Raulzito - Estou indefinido. Acho que deveriam ter colocado a Rita Camata como candidata e o Serra como vice. Ela é bonita e simpática, ele feio e chato. O Lula agora se aliou a Igreja Universal do Reino de Deus e eu tenho medo que o Edir Macedo vire ministro. Garotinho é um menino precisando de uma surra dos pais para deixar de mentir e o Ciro não é nada, é só um clone do Collor que foi modificado geneticamente para ficar parecido com uma opção séria. Ele melhorou nas pesquisas por causa da Patrícia Pilar, mas não é ela que vai governar.

CORREIO - E a eleição de governador de Pernambuco?
Raulzito - Eu voto na BR-232. Acho que é o melhor candidato. Humberto Costa tem a fala fina e eu sou machista. O Barradas é só uma laranja, chupada pelo velho Arraes e entregue às feras. A verdade é que no Estado a coisa não tem graça, não existe outra opção fora a BR. Quem sabe no próximo governo ela chega até Garanhuns e aí o município deixa de viver na dependência de Ferreira Costa.

CORREIO - É verdade que você não gosta de televisão?
Raulzito - É mentira. Gosto da TV brasileira e acho ela tremendamente educativa. O Gugu Liberato, o Faustão, as novelas, o Big Brother, o Datena. Todos eles fazem muito pela cultura nacional. Um dia desses tinha um cantor sertanejo num programa desses e nunca tinha ouvido falar em Getúlio Vargas, pensou que era o nome de um lateral direito do Vasco da Gama Futebol Clube. Não é ótimo isso? Acho a TV muito edificante.

CORREIO - E o rádio, os jornais?
Raulzito - Rádio é melhor ainda que televisão. Adoro a Ronda Policial, com o informe das bebedeiras e esfaqueamentos do Agreste Meridional. Ainda por cima tenho a oportunidade de saber que José não sei de quê é corno e fulano de tal é amancebado. Dos jornais de Garanhuns só não gosto muito do CORREIO, embora escreva nele. É que é muito metido a sério, com esse negócio de jornalista no meio, essa capacidade de criticar. Os outros não, tudo tá bem, tá maravilhoso. São coloridos e só mostram o que é bom, desde que o sujeito pague um anúncio de pelo menos 20 reais. Tá vendo como eu também sei elogiar?

CORREIO - Por que você gosta de escrever palavrão?
Raulzito - Todo mundo gosta de safadeza. Uns, são hipócritas e só fazem as coisas por baixo do pano. Outros, porém, gostam da autencidade, de revelar seu lado animal ou sua sensualidade. Não gosto do palavrão gratuito, mas quando o texto exigir a palavra buceta não vou ter vergonha nenhuma de escrever. Por que posso escrever assassino, bandido, estuprador, ladrão e não posso escrever gozar? Ter um orgasmo é muito melhor do que matar, ou não?

CORREIO - Você torce por algum time de Pernambuco?
Raulzito - Gosto muito da AGA, que vem fazendo ótimas campanhas no Campeonato Pernambucano. E adoro o Sete de Setembro, que parece perseguido por uma sina para não se classificar para a primeira divisão. Deve ser a síndrome do "já teve", tão presente em Garanhuns. Na capital, meu coração é rubronegro, minha cabeça é Santa Cruz e meus pés chutam pelo Náutico. Pelo menos no futebol estou de bem com todos, acho que é influência da Viviane que vai ao estádio só pra ver as pernas dos jogadores.

CORREIO - Por que você continua escrevendo para o Correio e ao mesmo tempo critica o jornal?
Raulzito - É que sou masoquista. Se eu fosse para outro jornal poderia ganhar dinheiro, elogiaria as pessoas e ninguém teria raiva de mim. Mas sou como mulher de malandro, aquela que gosta de apanhar.

CORREIO - E quem é o Raulzito? É o Janduy, o Rocir, o Jonas Lira, o Roberto Almeida ou a Núbia Kênia?
Raulzito - Eu diria que são todos eles. Raulzito é Raul Seixas ressuscitado, é a sociedade alternativa, o ouro de tolo, o guitã e a mosca na sopa, como vovó já dizia. Além de ser esotérico, apolítico, agnóstico, alienado e incoveniente, somos regionalistas. Por isso, somos Garanhuns. Mas Garanhuns mesmo, com suas belezas, seu centro bem cuidado de Suíça Pernambuicana e também sua periferia esquecida. Somos o Mundaú, as Cohabs, a Boa Vista, a Brasília, o Magano, a Bela Vista e o Indiano. Ser plural, ser periferia incomoda. Mas que posso fazer? Escrevo uma coluna de humor, na linha do antigo Pasquim, da turma do Papa Figo.
Mas não há de ser nada. Um dia viro capitalista e vou fazer coluna social. Então e esquecerei as mazelas sociais e só terei olhos para a elite, como as walkírias da vida.

CORREIO - Você não foi muito engraçado nessa entrevista?
Raulzito - Tem razão, Roberto Almeida. Acho que essa sua seriedade me intimidou. Mas pra que ser engraçado sempre? Quando começar o guia eleitoral, a campanha política a gente vai poder rir com as promessas e as mentiras de sempre.