POLÍTICA

 

Pecuarista pede CPI do leite

O empresário agropecuarista e presidente da Sociedade dos Criadores do Agreste Meridional, José Maria Azevedo, enviou longa correspondência ao dirigente da Assembléia Legislativa, deputado Romário Dias, denunciando a situação de penúria dos agricultores e pecuaristas do interior. A carta foi remetida também a outros líderes partidários com assento no Legislativo Estadual, como Augusto Coutinho (PFL), Antônio Morais (PSDB), Hélio Urquisa (PMDB), Paulo Rubem (PT), Carlos Lapa (PSB), Henrique Queiroz (PPB), José Queiroz (PDT), João Braga (PV), Teresa Dueire (líder do Governo), e Diniz Cavalcanti, presidente da Comissão de Agricultura da Assembléia.

"Os produtores de leite do Agreste Meridional de Pernambuco, única Bacia leiteira Tropical do Mundo, em processo de extinção, por falta de apoio mesmo em permanente luta contra a inclemência e instabilidade climática, responsável por 93% do Leite produzido no Estado, vêm através dos seus Órgãos de Classe, cumprimentar V. Excia., e na oportunidade estamos nos reportando ao nosso pleito no sentido da Instalação no nosso Estado de uma Comissão Parlamentar - CPI para o Leite", pede José Maria Azevedo, logo no início de seu documento.

"Justifica o nosso pleito o fato de, historicamente, a Bacia Leiteira de Pernambuco, situada no Agreste, sempre teve posição de liderança na produção de Leite "in natura" no Norte e Nordeste do Brasil, assim como no fornecimento de matriz holandês puro, meio sangue e o sete oitavos holando/jebu, fruto do pioneirismo do nosso produtor, em arrojadas e valorosas iniciativas, as quais se transformaram em exemplo e benefício para todo o Nordeste.

"Com a formação de rebanho resistente e produtivo, a Bacia Leiteira do nosso estado, com aproximadamente 42 mil propriedades, em 48 municípios, proporcionando 150 mil empregos diretos, influenciando um população de 1 milhão de habitantes, com indústria de capacidade instala para 500 mil litros de Leite/dia, coadjuvante, por 30 mil pequenas unidades de fabricação artesanal, que encontra-se como única opção econômica que mantém em atividade por todo o ano, a população do meio Rural e grande parte das cidades da Região.

"Há muitos anos, Carlos Lacerda produziu uma inesquecível frase de efeito sobre a pecuária leiteira. Na definição do grande tribuno carioca "leite" seria a arte de empobrecer alegremente". Decerto, Lacerda se referia à insistência obstinada de quem sempre se dedicou a produzir leite por tradição e por amor, na contracorrente histórica de tabelamentos, controles de preços, manipulações cambiais, políticas e incompreensões que testemunham o desapreço das autiridades econômicas pelos pecuaristas brasileiros.


"No nosso estado, por exemplo, 42 mil pecuaristas dos mais variados portes estão sendo literalmente garroteados por um Cartel de apenas uma grande indústria, que processa 54% do leite produzido. A cartelização dá margem a uma manipulação tamanha dos preços que, em plena entre safra, o litro de leite vendido pelo produtor à indústria caiu de 32 centavos para 24 centavos de real. No caso do pequeno produtor, depois que é pago o custo do frete do primeiro percurso, esse valor, de si irrisório, se reduz a cerca de 19 centavos! Isso eqüivale a menos que um terço de um copo d'água mineral!!!

"Vale lembrar às pessoas menos familiares com a luta do homem do campo que é justamente na entressafra que os produtores mais gastam para produzir seu leite do que ao longo de todo o restante do ano. A pastagem natural escasseia e a alimentação da vaca é reforçada com rações especiais para evitar uma queda mais drástica da produção de cada animal. Em poucas palavras, os custos de produção praticamente dobram. Mas, na contramão das justas expectativas e necessidades do pecuarista a multinacional de processamento e beneficiamento se prevalece de sua posição de monopólio para gastar menos.

"Se de alguém pensa que o consumidor urbano se beneficia desse movimento pagando menos leite que compra no supermercado ou na padaria, lamento que não. O leite tipo "C" continua sendo vendido no balcão por pelo menos 95 centavos, ou até 1,05 e o leite "longa vida" pelo mesmíssimo 1 real, ou até um pouco mais. Os interesses de ambas as pontas - da produção e do consumo - continuam a ser lesados pelo cartel que só sabe aumentar a sua margem de lucro e achatar a produção, mesmo das pequenas usinas.

"O Cartel, que prejudica indiscriminadamente a produtores e consumidores, está prestes a derrubar por terra longos anos de sacrifício, gastos e labor dedicados pelos pecuaristas a incrementar a produtividade, a qualidade e a competitividade das bacias leiteiras pernambucanas. O Programa do Leite, mesmo sendo importante, não tem atendido o princípio básico de sua criação.

"Esses mesmos pecuaristas enfrentam o pesado ônus de se preparem para a exigência do Ministério da Agricultura, segundo a qual, a partir do próximo ano, todo o leite a ser comercializado deverá ser resfriado e transportado a granel, sendo que mais de 60% da produção já está granelizada, dentro dos mais avnçados padrões tecnológicos. Agora, entretanto, o produtor pernambucano chegou ao limite de sua resistência econômica, financeira, emocional e até mesmo física.

"Quanto à indústria, controlada pela transnacionais do setor alimentício, pouco se lhes dá se o produtor pernambucano ou de outras áreas do país, vier a quebrar hoje, amanhã ou depois. Elas confiam, acima de tudo, na política comercial cega e suicida do governo, que prefere importar e onerar a balança comercial a proteger e prestigiar a produção nacional, exterminando empregos e fomentando um desordenado êxodo rural.

"Ao nos aproximar do fim deste que consideramos uma declaração de vida, fazemos questão de ressaltar que as atuais agruras leiteiras não se limitam a Pernambuco, estendendo-se a outros estados com essa mesma tradição produtiva. Não é mera coincidência, portanto, que as Assembléias Legislativas de Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina tenham instaurado comissões de inquérito para desnudar as maquinações dos cartéis. A propósito a CPI goiana, criada mediante 30 assinaturas de deputados estaduais de todos os partidos, já encerrou as suas atividades, com um saldo bastante positivo para os Produtores e Consumidores daquele Estado.

"Por isso, estamos apresentando solicitação da formação de uma Comissão Parlamentar, uma CPI, para investigar qual os motivos que após a privatização da CILPE nossa pecuária Leiteira entrou em processo de estagnação e desativação da Produção", conclui o líder classista.