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CORREIO CULTURAL Carlos Janduy
Um dia desses, um político de Garanhuns, atualmente sem mandato, falou pra mim: "o mundo está do jeito que está e tu continuas fazendo poesia". Confesso que na hora deu vontade de dizer alguma coisa que o levasse a refletir sobre o que tinha dito, mas, sei lá quais eram suas verdadeiras intenções. Afinal de contas, quem sou eu para julgar as idéias de alguém ou mesmo pensamentos jogados ao acaso. De qualquer forma, aproveito o fato para falar um pouco do que venha a ser a poesia para mim e para tantos outros que escrevem poemas, mas não tiram os pés da realidade. Apesar das sérias atribulações que enfrentamos neste mundo, não existe poesia dentro de cada um de nós? Claro que sim! Quando amamos alguém, quando somos pais, quando somos amigos de verdade, quando respeitamos e valorizamos os sentimentos dos outros, quando nos sensibilizamos com uma música, um espetáculo teatral, um filme, etc. Pois bem, a poesia é capaz de sensibilizar o ser humano. É a linguagem da alma, do sentimento, e deve ser muito bem cultivada. Em um depoimento dado à Revista Mundo Jovem, o poeta, escritor e colaborador do Jornal do Brasil, Alfonso Romano de SantAnna diz que cada um pode ser criador da sua própria poesia. É preciso experimentar, tentar e despertar o poeta que cada um tem dentro de si. O primeiro livro publicado por Alfonso, foi "O Desemprego do Poeta". Um livro de desencanto da possibilidade de comunicação da poesia com a sociedade. Ele experimentou uma série de contradições, mas aos poucos foi percebendo o mistério das comunicações e da poesia, nem sempre quantitativamente, massivamente, mas no entanto muito eficaz. "Hoje vivemos numa sociedade da internet. Os poetas invadiram a internet e se somam a milhares. A internet vem encantando os leitores da poesia, a tal ponto que o poeta chileno Antônio Skármata terá que tentar fazer outo livro: em vez do "Carteiro e o Poeta", o "E-mail e o Poeta", dentro desta sociedade eletrônica. O poeta se forma a partir de sua condição de leitor e da poesia". O primeiro texto poético que pode tocar as pessoas que ainda não têm consciência do que é poesia, é a Bíblia. Concorda? Os salmos de Davi, Provérbios, o ritmo poético vai entrando na consciência e termina aparecendo na poesia de muita gente. Depois vem a formação da escola com o leque de formação de leituras. Às vezes não são grandes poetas que influenciam; às vezes poetas "menores", secundaristas nos influenciam e nos levam a fazer poesia. A influência é, sem dúvida, algo complexo. Complementando esta idéia do poeta com seu leitor, ao invés de perguntarmos simplesmente onde está o leitor, seria muito bom que aqueles que têm proximidade e amor à leitura, comecem a procurar o poeta dentro de si mesmo. Há um processo de sensibilização do leitor para transformá-lo também em criador. O leitor não pode ser passivo, pois há um poeta dentro do leitor que pode ser despertado. E quanto mais sensibilizarmos os poetas que existem dentro dos leitores, a poesia transitará ainda mais, transformando-se em algo necessário e cotidiano. Devemos ler poemas a partir da experiência do encontro com o criador.
O poema que se segue foi escrito por Alfonso Romano de SantAnna, nos anos 80, ainda no impacto da ditadura do governo Figueiredo, quando se percebeu que o episódio do Riocentro era uma grande mentira. É lamentável que ainda hoje este poema continua atual em nosso país. A implosão da mentira Mentiram-me.
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